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Este blog é dedicado aos amantes da língua portuguesa, àqueles que querem sempre aprender mais e aos que querem conhecer melhor nossa empresa. A valorização da língua portuguesa é nosso maior objetivo e nossa maior alegria! Esperamos que façam bom proveito das informações aqui postadas!
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Qui, 01 de Dezembro de 2011 11:33

O esquecido pronome "cujo"

PASQUALE CIPRO NETO 

Cujo, o famigerado
Além de famigerado (com o sentido usual), o relativo 'cujo' é quase um moribundo, errático, sem sepulcro à vista
Um dos memoráveis contos de "Primeiras Estórias", obra-prima de Guimarães Rosa, é "Famigerado". Um bandidaço ("Damázio, dos Siqueiras") chega a um lugarejo e pede ao médico do local que lhe explique o significado de "famigerado" ("Eu vim perguntar a vosmecê uma opinião sua explicada").
Não vou estragar o prazer de quem ainda não leu o conto. Se é esse o seu caso, caro leitor, é só entrar num dos sites de busca e digitar "famigerado". Permita-me outra sugestão: assista ao belíssimo filme "Outras Histórias", que Pedro Bial dirigiu em 1999. O filme (que está -inteirinho- no YouTube) se baseia na obra quase homônima de Rosa. Um dos contos aproveitados por Bial é justamente "Famigerado". Poucas vezes vi fotografia tão impressionante como a desse filme. A essa beleza se acrescenta o magnífico trabalho dos atores e do diretor.
Pois bem. Ao pé da letra, "famigerado" significa "famoso", "célebre" etc., mas, no uso comum, esse adjetivo significa "tristemente afamado", "que tem má fama".

Qui, 17 de Novembro de 2011 09:25

Parônimo, o que é isso?

Mais um texto excelente do professor PASQUALE CIPRO NETO:

Os emigrantes e os imigrantes

Um polonês que veio morar no Brasil é emigrante em relação à Polônia e imigrante em relação ao Brasil

"Cerca de 491,6 mil brasileiros vivem no exterior, segundo os Indicadores Sociais Municipais do Censo Demográfico 2010 divulgados pelo IBGE nesta quarta." Assim começa uma matéria publicada ontem na Folha.com. Em seguida, a matéria cita os seis países que, juntos, "abrigam 70% dos emigrantes brasileiros".

Esse dado do IBGE também foi assunto de telejornais. No JH, da Globo, Sandra Annenberg disse, com a clareza de sempre, que "os emigrantes brasileiros...". Apesar disso, houve quem entendesse "imigrantes". Quando abri a caixa postal da coluna, por volta das 17h, encontrei algumas mensagens de leitores que abordavam a questão, tomando como base a leitura de Sandra ("Não seria 'imigrantes brasileiros'?"; "Existe a palavra 'emigrante'?").

Qui, 20 de Outubro de 2011 16:26

Concordância: os óculos dos Estados Unidos

Mais um excelente texto do professor Pasquale!

PASQUALE CIPRO NETO


"...a turbulência que atravessa os EUA..."


Dia desses, num dos programas de uma das emissoras que carregam o "News" no nome, ouvi a frase que dá título a esta coluna. Na verdade, não se disse "os EUA", e sim "os Estados Unidos".

Como se sabe, em se tratando do padrão formal da língua, a expressão "Os Estados Unidos" (quando sujeito) exige o verbo no plural, já que o artigo ("os") aparece flexionado no plural. Em sendo assim, são do padrão culto construções como "Os Estados Unidos certamente nunca imaginaram que um dia passariam pelo que estão passando" ou "Ao longo da história, os Estados Unidos produziram mais guerras do que qualquer outra coisa".
Na outra ponta, isto é, no uso efetivo da língua, sobretudo na fala, constata-se que não são raras construções como "Os Estados Unidos certamente nunca imaginou que..." ou "Ao longo da história, os Estados Unidos produziu mais guerras do que...", em que o verbo é posto na terceira pessoa do singular. A explicação para esse fato é simples: alguns falantes tendem a entender "os Estados Unidos" como uma unidade, ou seja, como uma coisa só, um país, e aí fazem a concordância com a ideia e não com a forma. Muita gente chega a dizer "o Estados Unidos" (sim, com o artigo no singular), o que evidencia ainda mais a ideia de que se considera o nome próprio "Estados Unidos" como uma unidade, uma coisa só.

Sex, 14 de Outubro de 2011 15:44

Cadê o cujo?

Mais um excelente texto, cuja leitura vale a pena!

(Ó, colocamos o "cuja" aí, direitinho, como manda o professor!).

PASQUALE CIPRO NETO

'...estava previsto para embarcar...'



O fato é outro: é o cacoete, a expressão viciada, guiada pelo piloto automático, usada irrefletidamente

Neste espaço, já citei mais de uma vez um texto que o grande Otto Lara Resende publicou nesta Folha, em 1992, no qual o mestre mineiro falava do "desaparecimento" do pronome relativo "cujo", que "bateu asas e voou. Virou ave migratória". 
Esse texto chegou a ser mote de uma questão da Unicamp, cujo enunciado começava assim: "O comentário acima, do escritor Otto Lara Resende, refere-se ao fato de que o uso do pronome relativo 'cujo' é cada vez menos frequente. Isso faz com que os falantes, ao tentarem utilizar esse pronome na escrita, construam sequências sintáticas que levam a interpretações estranhas. Veja o exemplo seguinte: 'O povo não só quer o impeachment desse aventureiro chamado Collor, como o confisco dos bens nada honestos do sr. Paulo Cesar Farias e companhia. E que a esse PFL e ao Brizola (cuja ficha de filiação ao PDT já rasguei) reste a vingança do povo...'". 
O manifesto é de um leitor da Folha e foi publicado no Painel do Leitor, de 30/07/92. A levarmos ao pé da letra o que ele afirma, a ficha de filiação de Leonel Brizola ao PDT foi rasgada por... Por esse leitor, uai! 

Sex, 09 de Setembro de 2011 16:07

Paralelismo

Coluna do Professor Pasquale Cipro Neto na Folha


PASQUALE CIPRO NETO

'...preferem português à matemática'



Diversos meios de comunicação mostraram que também tropeçam no trato com a língua



HÁ DUAS SEMANAS, foram divulgados novos dados sobre o desempenho dos nossos estudantes. Os resultados foram comentados à exaustão nos jornais, sites etc. Solidários, diversos meios de comunicação se aliaram aos alunos, ou seja, demonstraram que também tropeçam no trato com a língua.
Comecemos por um título (de um site), que terminava assim: "...preferem português à matemática".
O problema não está no verbo "preferir", que no registro culto é usado com a preposição "a" ("Prefiro um asno que me carregue a um cavalo que me derrube"). No título, usou-se a construção formal, mas...
Mas o velho hábito de eliminar dos títulos os artigos definidos talvez tenha feito o redator se perder. Explico: para manter a simetria, quem escreve "preferem português" deve terminar a construção com "a matemática" ("...preferem português a matemática"). Por quê? Porque "à" resulta de "a" + "a", em que o segundo "a" (nesse caso) é artigo. Ora, se não se usou artigo antes de "português", ou seja, se não se escreveu "preferem o português", por que é que se vai empregar artigo antes de "matemática"?

Qui, 07 de Julho de 2011 17:47

Conjugações difíceis

PASQUALE CIPRO NETO 

Um verbo enjoadinho 


Formas como "requisesse" ou "requiseram" não encontram abrigo no padrão formal da língua


O QUE NÃO FALTA na caixa postal da coluna é pergunta sobre a conjugação de verbos complicados. A lista é grandinha e inclui "preciosidades" como "adequar", "precaver", "reaver", "requerer", "falir", "prover", "prever", "provir", "intervir", "satisfazer", "ver", "entreter" etc.
Embora muitos desses verbos sejam conjugados no dia a dia e em muitos escritos como se fossem regulares, nas modalidades formais da língua suas singularidades ou irregularidades continuam prevalecendo. Em outras palavras, isso significa que, ainda que frequentemente se ouçam e se leiam construções como "Se o ministro intervir" ou "Se ninguém se opor", gramáticas, dicionários, manuais e guias de uso continuam indicando como cultas as construções "Se o ministro intervier" e "Se ninguém se opuser"...

Dom, 26 de Junho de 2011 19:30

Traduções infelizes


Mais uma ótima coluna do professor Pasquale Cipro Neto, no jornal Folha de S. Paulo de 23 de junho!


PASQUALE CIPRO NETO

Traduções infelizes, engraçadas...

Muitas traduções infelizes decorrem da incúria ou da perigosa semelhança entre termos de línguas distintas

O TEXTO DA SEMANA PASSADA levou muita gente a me enviar deliciosas colaborações para engordar a lista de bizarrices causadas pelo uso "esquisito" de certos termos estrangeiros. Separei dois dos casos mais apetitosos enviados pelos leitores.
Um deles é "tela touch screen", que aparece em muitos anúncios de celulares, computadores etc. Salvo engano, "screen" significa "tela", de modo que... Bem, como se vê, parece que o "frango chicken" não está sozinho na parada. Além da companhia da "tela touch screen", nosso pleonástico galináceo tem a do "wireless sem fio", expressão citada por vários leitores. Um deles chegou a me mandar cópia de um anúncio de uma loja de uma capital brasileira em que se lê a incrível maravilha.
A tradutora Lenke Peres (autora do conceituado "Dicionário de Termos de Negócios" -português-inglês/inglês-português) me enviou uma boa lista de "traduções" equivocadas que já ganharam nossas ruas e páginas. Uma dessas "traduções" é "planta", já usada entre nós com o sentido de "instalação", "fábrica" ou "unidade industrial" ("Na planta de Campinas, a empresa produz..."). Trata-se da "tradução" literal de "plant", que em inglês tem esse sentido, entre outros. Embora já seja muito usada por aqui, a forma "planta" só aparece com esse sentido no "Aurélio". O "Houaiss" e o "Aulete" ainda não a registram.
Outra pérola da lista de Lenke Peres é "apólice compreensiva", expressão que as seguradoras de Pindorama (com a devida licença de Elio Gaspari) empregam com o sentido de "apólice abrangente" ("total", "completa"). A bobagem decorre de uma tradução obtusa (do inglês "comprehensive policy"). Lenke brinca e faz um delicioso trocadilho ("embora muitas seguradoras mostrem que suas apólices não são tão compreensivas assim na hora de pagar as indenizações").
Read MoreSe você quiser ver mais exemplos da lista da tradutora Lenke Peres, procure na internet o texto "Traduttori traditori" (que significa "Tradutores traidores" -a expressão original, italiana, costuma vir no singular, mas Lenke a pôs no plural justamente para se referir ao que andam fazendo certos "tradutores"). Vale a pena ler o texto, claro e muito bem escrito. Bem, antes que me esqueça, lá vai o meu "obrigado" a Lenke pela gentil mensagem que me enviou. (Continua)

Qui, 09 de Junho de 2011 14:10

Genial como sempre

Sempre excelente, segue a coluna do prof. Pasquale publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

PASQUALE CIPRO NETO
"Se der um tapa na bola, Neymar ia..."

A linguagem se adapta ao veículo. Quando o locutor disse a primeira parte da frase, Neymar de fato...
O CARO LEITOR CERTAMENTE já ouviu falar de correlação verbal, não? Bem, os que leem habitualmente esta coluna, os que estão às voltas com vestibulares e concursos e os que estudam a língua, entre outros, decerto já ouviram falar disso.
Para quem não sabe ou esqueceu, lá vai: a correlação verbal se ocupa do casamento entre o tempo e o modo de duas formas verbais de um mesmo período. Vamos a alguns exemplos básicos: "Se ele/a for embora, o que você fará?"; "Se ele/a fosse embora, o que você faria?".
No primeiro exemplo, há correlação entre as formas verbais "for" (do futuro do subjuntivo) e "fará" (do futuro do presente do indicativo). No segundo, a correlação se dá entre "fosse" (do pretérito imperfeito do subjuntivo) e "faria" (do futuro do pretérito do indicativo).
Se o caro leitor tiver ficado enjoado com tantos nomes de tempos e modos verbais, tome um digestivo, digo, esqueça essa montoeira de nomes e guie-se pelo senso, pelo bom senso, pela intuição, que, quase sempre, resolvem o problema.
Por que "quase sempre"? Porque há alguns casos capciosos, que às vezes nos pregam surpresas. Um desses casos é o da forma "havia", do verbo "haver". No padrão formal da língua, é desejável que se prefira essa flexão à do presente do indicativo ("há") em construções como estas: "Havia seis anos que o importante projeto estava parado nas gavetas do Congresso"; "Quando eles se conheceram, havia dois anos que o ex-ministro ocupava a pasta".
Nos exemplos do parágrafo anterior, comprova-se a pertinência do emprego da forma "havia" com a simples substituição dessa flexão por "fazia": "Fazia seis anos que o importante projeto estava parado nas..."; "Quando eles se conheceram, fazia dois anos que o ex-ministro ocupava...". As formas "havia" e "fazia" são do mesmo tempo verbal (pretérito imperfeito do indicativo).
Na língua do dia a dia, a forma "havia" é substituída por "há", que, na prática, funciona como partícula intemporal. São comuns nessa variedade da língua (e mesmo em vários registros escritos) construções como estas: "Ele trabalhava lá há seis anos" ou "Eu não via seu primo há seis anos". Esse uso é tão disseminado que, em seu "ABC da Língua Culta", Celso Luft assim escreve na entrada "há": "Forma do verbo haver, significando: 1. Faz ou fazia: Há um ano que não o vejo. Há um ano que tinha desaparecido (melhor, coordenando os tempos: Havia um ano que tinha desaparecido)".
Como se vê, Luft dá "há" como equivalente a "faz" ou "fazia", mas logo faz a observação sobre o que é "melhor". E por que será "melhor"? Talvez porque em determinados registros podem caber as duas formas, com valores distintos. Vejam-se estes exemplos: "Ela estava no hospital há um ano"; "Ela estava no hospital havia um ano". Percebeu? No primeiro exemplo, informa-se que há um ano, ou seja, um ano atrás, ela estava no hospital (não se diz quanto tempo ela passou lá); no segundo, informa-se que fazia um ano que ela estava no hospital.
E onde entra Neymar na conversa? Vamos lá. Dia desses, um locutor disse isto: "Se der um tapa na bola, Neymar ia ficar sozinho". Terá ele errado a correlação entre "der" e "ia ficar" (= "ficaria")? Não e não, caro leitor. A linguagem se adapta ao veículo. Quando o locutor disse a primeira parte da frase ("Se der um tapa na bola" -o sujeito dessa oração não era "Neymar"; era o jogador que daria o tapa na bola), Neymar de fato ficaria sozinho se o outro jogador... Mas o passe não foi dado, e o raciocínio do locutor foi tão rápido quanto o desfecho do lance, por isso a troca de "vai ficar" (= "ficará"), por "ia ficar". É isso.
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Seg, 30 de Agosto de 2010 17:21

A língua dos títulos

Mais uma do prof. Pasquale Cipro Neto!

Pode ter ocorrido aí o que chamamos de cruzamento (o redator usou "culpar" com a regência de "atribuir")


O LEITOR HABITUAL deste espaço sabe que volta e meia escrevo duas palavras sobre preciosidades perpetradas pelos meios de comunicação. Esse leitor sabe também que o que menos me importa quando faço esse tipo de análise é a questão do "erro" (um cochilo na concordância, por exemplo, é muito menos importante que uma combinação esdrúxula das palavras ou uma regência forçada, que faz valer a máxima do "título bom é título que cabe").Posto isso, vamos a uma construção, desencavada do meu arquivo de pérolas. Aliás, há tempos quero comentar o caso -um título publicado neste ano, depois do terremoto no Haiti. Lá vai: "Cônsul do Haiti no Brasil diz que desgraça "é boa" e culpa terremoto à religião". Elaiá! Culpa terremoto à religião? Em que língua? Será que a intenção não era dizer "culpa a religião pelo terremoto" ou "atribui o terremoto à religião"?Pode ter ocorrido aí o que chamamos de cruzamento (o redator empregou o verbo "culpar" com a regência de "atribuir"). O problema é que não sabemos se o redator fez mesmo esse cruzamento mental ou se, depois de redigir adequadamente (com o verbo "atribuir"), deu-se conta de que a frase não cabia e... 

Qui, 07 de Maio de 2009 17:53

Crase

Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 07 de maio de 2009, à pág. C2, pelo prof. Pasquale.
Pasquale Cipro Neto
"Febre superior à (a) 39 graus"

Dizei-me vós, Senhor Deus: por que diabos se emprega mal o acento grave mesmo em casos tão óbvios e banais?

E A TAL DA GRIPE (já mudaram o nome da infeliz) não faz mal só às pessoas. Explico: na semana passada, trocamos dois dedos de prosa sobre a formação e o significado de palavras como "endemia", "epidemia", "pandemia", "pandemônio" etc. Pois alguns leitores aproveitaram a deixa para lembrar que, em painéis de alguns aeroportos, o Ministério da Saúde desferiu alguns golpes contra a língua.
Um desses golpes estava nesta passagem: "...febre superior à 39 graus...". Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus: por que diabos se emprega mal o acento grave (acento indicador de crase) mesmo em casos tão óbvios e banais como o da advertência em questão?
Só os ingênuos não conhecem o poder de mensagens como essa, exibidas em painéis bonitos, em lugares "chiques" como aeroportos etc. O cidadão bate os olhos e fica com aquilo na memória e, quando vai escrever, tende a repetir o que viu ali.
Se a escola cumprisse sempre a sua parte nesse quesito, ou seja, se mostrasse como é o fenômeno da crase, talvez se eliminasse uma das razões de as pessoas terem tanta dificuldade para perceber que "bater a porta" é bem diferente de "bater à porta" e que "viver a espera de viver ao lado teu por toda a minha vida" também é bem diferente de "viver à espera de viver ao lado teu...".
Pois não custa relembrar os passos básicos. Vamos lá. O "a" com acento grave resulta de "a" + "a", em que o primeiro "a" é sempre preposição, e o segundo "a" quase sempre é artigo feminino (quase sempre, é bom enfatizar). Em "Sugeri à diretora que relesse o texto", por exemplo, ocorre a fusão da preposição "a", regida pelo verbo "sugerir" (se alguém sugere, sugere a alguém), com o artigo "a" (feminino, singular), determinante do substantivo "diretora" (feminino, singular). Um truque velho e conhecido consiste em trocar o substantivo feminino ("diretora") por um masculino: "Sugeri ao diretor...". Num passe de mágica, o "à" se transformou em "ao".
Em "febre superior a 39 graus", é evidente a presença da preposição "a", regida pelo adjetivo "superior" (se algo é superior, é superior a). Para que o "a" que precede "39 graus" receba acento grave, é preciso que ocorra a fusão com outro "a". Cadê esse outro "a"? Seria um artigo (feminino, singular), determinante da expressão "39 graus", que é masculina, plural? Claro que não. Não há outro "a", caro leitor.
Embora a indevida presença do acento grave no "à" de "superior à 39 graus" não mude o preço do feijão, entender por que nesse caso ele é indevido ajuda a entender outras construções em que a presença dele muda o preço do feijão, sim.
Quer um bom exemplo? Lá vai: "Mantém-se a/à esquerda". Que lhe parece? Em "mantém-se a esquerda", a expressão "a esquerda" é sujeito. A construção equivale a algo como "A esquerda se mantém". Em "Mantém-se à esquerda", o sujeito certamente foi citado antes e, no caso, está representado pelo pronome "ele/ela", implícito na flexão verbal "mantém", da terceira pessoa do singular. Agora, indica-se que alguém se mantém à esquerda, ou seja, continua nessa posição (física ou política).
Em termos de fluidez de leitura, tudo isso faz uma enorme diferença. A leitura vai, avança, flui, sem tropeços, sem necessidade de voltar a partes anteriores. É isso.
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