Este blog é dedicado aos amantes da língua portuguesa, àqueles que querem sempre aprender mais e aos que querem conhecer melhor nossa empresa. A valorização da língua portuguesa é nosso maior objetivo e nossa maior alegria! Esperamos que façam bom proveito das informações aqui postadas! |
Mais uma ótima coluna do professor Pasquale Cipro Neto, no jornal Folha de S. Paulo de 23 de junho!
PASQUALE CIPRO NETO
Traduções infelizes, engraçadas...
Muitas traduções infelizes decorrem da incúria ou da perigosa semelhança entre termos de línguas distintas
O TEXTO DA SEMANA PASSADA levou muita gente a me enviar deliciosas colaborações para engordar a lista de bizarrices causadas pelo uso "esquisito" de certos termos estrangeiros. Separei dois dos casos mais apetitosos enviados pelos leitores.
Um deles é "tela touch screen", que aparece em muitos anúncios de celulares, computadores etc. Salvo engano, "screen" significa "tela", de modo que... Bem, como se vê, parece que o "frango chicken" não está sozinho na parada. Além da companhia da "tela touch screen", nosso pleonástico galináceo tem a do "wireless sem fio", expressão citada por vários leitores. Um deles chegou a me mandar cópia de um anúncio de uma loja de uma capital brasileira em que se lê a incrível maravilha.
A tradutora Lenke Peres (autora do conceituado "Dicionário de Termos de Negócios" -português-inglês/inglês-português) me enviou uma boa lista de "traduções" equivocadas que já ganharam nossas ruas e páginas. Uma dessas "traduções" é "planta", já usada entre nós com o sentido de "instalação", "fábrica" ou "unidade industrial" ("Na planta de Campinas, a empresa produz..."). Trata-se da "tradução" literal de "plant", que em inglês tem esse sentido, entre outros. Embora já seja muito usada por aqui, a forma "planta" só aparece com esse sentido no "Aurélio". O "Houaiss" e o "Aulete" ainda não a registram.
Outra pérola da lista de Lenke Peres é "apólice compreensiva", expressão que as seguradoras de Pindorama (com a devida licença de Elio Gaspari) empregam com o sentido de "apólice abrangente" ("total", "completa"). A bobagem decorre de uma tradução obtusa (do inglês "comprehensive policy"). Lenke brinca e faz um delicioso trocadilho ("embora muitas seguradoras mostrem que suas apólices não são tão compreensivas assim na hora de pagar as indenizações").
Read MoreSe você quiser ver mais exemplos da lista da tradutora Lenke Peres, procure na internet o texto "Traduttori traditori" (que significa "Tradutores traidores" -a expressão original, italiana, costuma vir no singular, mas Lenke a pôs no plural justamente para se referir ao que andam fazendo certos "tradutores"). Vale a pena ler o texto, claro e muito bem escrito. Bem, antes que me esqueça, lá vai o meu "obrigado" a Lenke pela gentil mensagem que me enviou. (Continua)
"É consensual que (as) poucas leis brasileiras..."
Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes |
NA COLUNA DA SEMANA passada, ao analisar a(s) bendita(s) frase(s) que encerra(m) as peças publicitárias de medicamentos ("A/Ao/Se persistirem os sintomas, o médico..."), afirmei, em tom meio jocoso, que "não entendo bem por que "o médico" e não "um médico", mas isso é outra história".
Na segunda-feira, a professora Priscila Figueiredo, que trabalha comigo na TV Cultura, disse-me que lera a coluna e, também em tom meio jocoso, afirmou que o uso do artigo "o" em "o médico deverá ser consultado" lhe dá a impressão de volta aos velhos tempos, como se o médico fosse uma espécie de pajé, o único da tribo. Eu complementei o que ela disse com a informação de que em muitos países existe a figura do médico (do serviço público) de família, o que torna razoável o uso do artigo definido. Por aqui, parece melhor optar mesmo pelo indefinido ("um médico deverá ser...").
Pois bem. Revirando a memória, lembrei-me de uma questão do último vestibular do Ibmec-SP, que, de forma muito interessante, aborda a questão do emprego do artigo definido. O enunciado da questão era este: "Compare estes períodos: I - É consensual que as poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam. II - É consensual que poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam".
Ofício de traduzir influencia não só o sucesso da obra mas também a imagem de um país diante de ideologias locais
PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA
Os problemas e perigos da tradução já foram discutidos muitas vezes, e não foi preciso esperar pelo encantador filme de Sofia Coppola de 2003 para nos darmos conta do que é "perdido na tradução" [Lost in Translation, lançado no Brasil como "Encontros e Desencontros"].
O filósofo espanhol José Ortega y Gasset [1883-1955] certa vez descreveu o projeto da tradução como sendo "utópico", e, na Alemanha, Johann Gottfried Herder já tratava do assunto no final do século 18.
Herder imaginou alguém tentando traduzir a obra do poeta francês setecentista Prosper de Crébillon para a língua dos lapões, e esse experimento mental o levou a indagar se algumas idéias ou mesmo textos não seriam "unübersetzbar" -"intraduzíveis".
Neste artigo -traduzido de minha versão inglesa original- eu gostaria de examinar esses problemas a partir de um ângulo particular: o das palavras intraduzíveis.
Muitas pessoas gostam de dizer que certas palavras de suas línguas maternas são intraduzíveis. Os franceses às vezes afirmam que "esprit" [espírito], "galanterie" [galanteria] e até mesmo "politesse" [polidez] não têm equivalente reais em outros idiomas.
Os ingleses não sabem ao certo se estrangeiros compreendem o que eles querem dizer quando falam num "sportsman" [esportista, pessoa com espírito esportivo] ou "gentleman" [gentil-homem, cavalheiro]. No caso do alemão, vêm à mente termos como "geist", suspenso no espaço lingüístico em algum lugar entre "espírito", "mente" e "cultura".
Em português, palavras como "saudade", "jeitinho", "malandro", "sacanagem" e "safadeza" criam problemas especiais para aqueles que gostariam de traduzi-las.
Saudade
Afirmações desse tipo não devem ser aceitas incondicionalmente. Em russo e em turco, assim como no português, um dos termos dos quais mais comumente se alega que é intraduzível -"saudade", "toska" ou "hüzun" (uma das palavras favoritas do escritor turco Orhan Pamuk)- significa algo como "nostalgia", "anseio" ou "melancolia".
Talvez seja mais exato dizer que determinadas palavras são especialmente difíceis traduzir para outras línguas.
Mestiço
A palavra "mestiço", por exemplo, não é fácil de traduzir ao inglês, pois aparentes equivalentes como "half-breed" ou "half-caste" soam pejorativos -resíduos lingüísticos de preconceitos antigos. Mesmo assim, essas afirmações sobre intraduzibilidade têm, sim, algo de importante a nos revelar sobre os valores das diferentes culturas em que são feitas.
Foi por essa razão que a escritora russa expatriada Svetlana Boym pediu recentemente um "Dicionário de Intraduzíveis", enquanto o narrador de "Shame" [Vergonha, 1983], romance do anglo-indiano Salman Rushdie, que passou sua vida na fronteira entre culturas e línguas, observa que, "para decifrar uma sociedade, observe suas palavras intraduzíveis".
Entre essas palavras, aprende o leitor, está "sharam", um termo em urdu que, segundo nos é dito, não é adequadamente traduzido por "vergonha".
Para serem compreendidas por estrangeiros, palavras desse tipo requerem uma tradução não apenas lingüística, mas também aquilo que hoje é conhecido como "tradução cultural".
O sociólogo húngaro Karl Mannheim [1893-1947], que, como Rushdie, viveu na fronteira entre culturas e línguas -depois de refugiar-se na Grã-Bretanha na década de 1930 e tornar-se professor na London School of Economics-, queixou-se certa vez da "urgente necessidade e grande dificuldade de traduzir uma cultura em termos de outra".
Domesticação
Essa metáfora foi adotada por antropólogos e outros acadêmicos interessados no estudo dos encontros culturais. Hoje, "tradução" exprime o que os escritores oitocentistas queriam dizer quando escreviam sobre "ocidentalizar" ou "anglicizar" ou Gilberto Freyre, quando falava em "abrasileirar" ou "tropicalizar".
Poderíamos falar igualmente bem em "domesticar", mas a metáfora da tradução possui a vantagem de nos lembrar da importância da língua nos encontros e nos intercâmbios culturais. Tome-se o caso, bastante comum nos últimos dois séculos da história mundial, de uma cultura em que alguns indivíduos que exercem liderança desejam seguir modelos estrangeiros.
Foi o caso, por exemplo, no Japão após 1868, quando a restauração do poder do imperador, que durante muito tempo fora mera figura representativa, estava vinculada ao desejo da elite política de modernizar o país, adotando modelos estrangeiros.
Uma parte da elite esperava por uma monarquia constitucional ao estilo britânico, enquanto outras desejavam um sistema mais autoritário.
Foi nessa época, em 1871, que o ensaio do filósofo inglês John Stuart Mill "Sobre a Liberdade" (1859) foi traduzido ao japonês.
A tradução foi feita por Nakamura Keiu, um estudioso confuciano empregado pelo governo que se convertera ao cristianismo e era um intelectual japonês destacado da época.
Nakamura visitara a Inglaterra em 1866 e ficara impressionado pelo fato de que, em suas palavras, uma nação pequena governada por uma mulher tinha sido capaz de derrotar o antes poderoso império chinês. Ele endereçou um memorial ao imperador, "Sobre a Imitação dos Ocidentais", e traduziu "Self-Help" (Auto-Ajuda), um manual para o sucesso escrito por outro inglês vitoriano, Samuel Smiles.
As conseqüências que se seguiram à publicação da tradução de Nakamura ilustram com clareza especial o problema do que Roberto Schwarz, famosamente, já descreveu como "idéias fora do lugar". Um dos problemas mais sérios para o tradutor do ensaio de Mills era a ausência, no japonês, de um termo equivalente ao inglês "liberty" (liberdade).
Algumas pessoas usavam a palavra inglesa, pronunciando-a "riberuchi", ou optavam por "freedom", que pronunciavam "furidomi".
Mas o tradutor optou pelo termo japonês tradicional "jiyu". A decisão de Nakamura teve a vantagem de fazer o conceito inglês parecer menos exótico, mais fácil de assimilar. Seu livro popularizou-se rapidamente, vendendo milhares de cópias.
Formação de elite
O preço da decisão tomada por Nakamura Keiu foi que os leitores de sua tradução provavelmente entenderam "jiyu" em termos de suas associações tradicionais negativas, por exemplo com voluntariosidade e também com egoísmo.
O resultado lingüístico do debate em torno da tradução da palavra "liberty" pode ter afetado o resultado político do debate sobre a nova Constituição japonesa, algo que encorajou a elite em sua opção coletiva por uma forma de monarquia menos autoritária.
Uma moral dessa história é que os tradutores carregam uma responsabilidade pesada, pois suas escolhas em termos de palavras podem ter conseqüências sérias.
Mesmo assim, o ônus não cabe unicamente a eles. O estudo dos intercâmbios culturais e da tradução cultural sugere que, quanto maior a distância entre duas culturas e, especialmente, entre seus valores fundamentais, mais difícil se torna a tarefa do tradutor.
Além de certo ponto, traduzir se converte em "Missão Impossível".
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